domingo, julho 08, 2007

Três instantâneos

Terça-feira, 14h00

Felipão e Forró Moral enche as ruas da aldeia, em Caucaia. O som vem de uma casa próxima, de alvenaria, telhado vermelho e cercada com arame farpado. Roupas colorem o varal, que cruza o quintal da casa como cordões de bandeirolas, muito comuns durante os festejos que marcam o mês de junho em todo o nordeste.

Encostadas umas às outras, cinco ou seis bicicletas. Segue, à sombra da mangueira, a roda de conversa, encontro semanal que reúne representantes das doze comunidades espalhadas no município. Discute-se muito, os índios têm, de modo geral, uma agenda política apertada. Dificilmente consegue-se espaço nela.

Distraída, a índia costura. De quando em quando, levanta a cabeça das linhas com que vai dando forma a uma manta para, no instante seguinte, voltar a enovelar-se nos próprios pensamentos.

Um cachorro, branco e magro, revira-se na areia. Parece gostar do sol. Duas crianças aproximam-se. São irmãos, foram batizados com nomes “bíblicos”: Ismael e outro. Estão nus, a barriga inchada à mostra. Têm muitas feridas nos pés e nos braços. Divertem-se sozinhos com varetas e uma tira de câmara de ar. Empunham arco e flecha de brincadeira.

Querem ser fotografados. Imagina que sim, que devem, como o cachorro magro e branco, gostar de ser fotografados. Eles sorriem, posam para fotos. Na segunda, ele pede para que empunhem, sorridentes, os arcos. Eles gostam, não o deixam ir embora. Ele vai.


Sábado, 12h00

Dois pedaços de madeira lado a lado, uma carcaça de geladeira, muitos fios, buzina. Na proa do carro, duas caixas de som presas com barbante. Cuidadoso, ele manobra o carro. Veste camisa de botão encardida, bermuda rasgada, boné do Ceará. Calça chinelo de dedo. Há pouco, despejara alguns quilos de ferro, plástico e papelão sobre o prato enferrujado da balança. Enfiou os trocados no bolso, deu marcha à ré.

Na rua, parado entre o homem e o lixo da cidade, o menino. Sem camisa, usando calção azul, pede: “Acende o farol!”

Meio-dia, a luz amarela das lâmpadas fraqueja. “Toca a buzina.” O som estridente parece animá-lo. O menino cede passagem. O homem encara-o, sem cumprimentá-lo, e vai embora.


Qualquer dia da semana, manhã, tarde ou noite

Entra, estende uma nota de dois reais, recebe o troco. Cambaleia até a poltrona, desaba. Silêncio, o veículo quase vazio. Enquanto segue viagem, as faixas intermitentes da avenida aos poucos grudadas umas às outras, numa única e dormente faixa branca, pode concentrar-se em nada, em ninguém.

Ela sobe, vem do escuro. É noite, quase nove horas, devia estar em casa, a mãe talvez desesperada, o pai quem sabe aflito. Muito criança. Doze anos, se tanto. Usa o cabelo solto, que se avoluma no alto da cabeça. Veste uma camiseta apertada, dois números abaixo do seu. Calça chinelinha de dedo. Nas canelas, uma e outra cicatriz. Carrega uma caixa colorida. Não sorri.

Na caixa, bombons, pirulitos, chiclete. Muita coisa doce.

Não queria estragar os dentes. Ignorou-a.

2 Comentários

Blogger camila said...

Henrique, gosto do seu texto, de como trata as pessoas, as ruas, a cidade. Não vai ficar cheio de pernas, tá!?
Não conhecia esse blog, encontrei no escritos insalubres. Estou gostando muito.
Camila Grangeiro

10:35 AM  
Blogger Henrique Araújo said...

Fique à vontade, Camila, e volte sempre ao blog.

Abraços!

9:55 AM  

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